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sexta-feira, 10 de setembro de 2010

A divisão da esquerda

O escritor inglês George Orwell ficou bastante famoso por seus livros 1984 e Revolução dos bichos, mas em minha opinião seus textos mais instigantes são os que relatam sua experiência na guerra civil espanhola. Reunidos num mesmo volume e editados pela Globo, Lutando na Espanha reúne os textos Homenagem à Catalunha e Recordando a guerra civil espanhola, além de outros escritos. O maior mérito da editora foi a de atender a uma determinação do autor, feita pouco antes de morrer, de que em uma segunda edição, os capítulos 5 e 11 de Homenagem a Catalunha fossem transformados em apêndices e colocados no final do livro. Com isso, queria dar ao texto mais linearidade, separando os capítulos dedicados à análise política, daqueles em que privilegiava a narração no campo de batalha.

Esta medida, de fato, tornou o livro muito mais ágil, o que não quer dizer que a leitura dos apêndices seja menos deliciosa do que os relatos bélicos. São delícias diferentes, como quindim e feijoada.

A guerra foi vencida pelos fascistas de Francisco Franco, principalmente devido à ajuda estrangeira que recebeu da Alemanha de Hitler e da Itália de Mussolini, enquanto a ajuda que a Rússia deu ao governo Espanhol foi muito mais frouxa. O governo contava, entretanto, com o engajamento de numerosos voluntários, idealistas do mundo todo, imbuídos de um pensamento libertário e de justiça social, mas que não foi suficiente para a vitória.

O que mais chama a atenção no relato de Orwell é a profunda divisão que a esquerda sofreu. Embora fosse claro, para todos, que o verdadeiro inimigo era a direita franquista, a partir de um determinado momento, o governo constituído, dominado pelos comunistas, dedicou mais esforços para combater os anarquistas e trotsquistas, seus antigos aliados no campo de batalha, do que os avanços das tropas fascistas. Esta atitude estava muito firmemente ligada às condições que Stalin impunha para continuar dando algum apoio ao governo espanhol.

Enquanto lia o livro, não pude deixar de me lembrar da esquerda brasileira na época da ditadura militar. Lembro-me, claramente, de longuíssimas discussões entre stalinistas e trotskistas ou entre militantes do PCB e do PCdoB, debaixo da mais brava repressão, como se o verdadeiro adversário não fosse o regime instaurado em 1964.

Sempre considerei este, o maior pecado da esquerda brasileira. A incapacidade de unir-se por uma causa comum, sempre contrastou, diametralmente, com a capacidade que os diversos segmentos da direita tinham de fazer acordos e conchavos. Enquanto aquela, embrenhava-se em posições sectárias, presas a um constante revisionismo ou a aventuras irresponsáveis, esta sempre mostrava-se apta a fazer todo tipo de conluio que fosse necessário para obter a vitória.

O segundo erro grosseiro da nossa esquerda sempre foi o de menosprezar a inteligência do adversário. Quantas vezes discuti com amigos que não concebiam a possibilidade de que houvesse vida inteligente no seio da direita. Não percebiam que, caso fosse composta apenas de beócios, jamais conseguiria manter-se tanto tempo no poder.

O que aconteceu na guerra da Espanha e o que sucedeu no Brasil, à época da ditadura militar, deve servir para que percebamos que, em matéria de política, sempre há muito o que aprender.

Um comentário:

Romanzeira disse...

Vc já assistiu "Hercules 56"? Eu sim,o relato que mais me chamou atenção foi de um dos caras trocados pelo embaixador norte-americano, hoje médico, que disse o seguinte: enquanto esteve preso um dos guardas, ou torturadores (agora não lembro) lhe dizia sempre que o problema da esquerda era a desunião, com o que ele acabou por concordar anos depois.